Aliança de Misericórdia - Rio de Janeiro
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                                                              AMAR POR PRIMEIRO

                                                              Estamos vendo como, para poder progredir para um amor perfeito, o primeiro passo é amar o outro como eu me amo. É preciso conhecer-se no profundo do coração, conhecer os próprios limites, feridas, dons, capacidade. Tudo isso exige um caminho, porque não é nada fácil se conhecer e se amar.

                                                              Tantas vezes lutamos e ficamos com raiva de nós mesmos por saber por que temos determinadas reações e comportamentos, que nos deixam de boca aberta. Acontece também de nos sentirmos tão difíceis, tão complicados, que desistimos de tudo, embora seja forte o desejo e a necessidade ir além dos nossos erros e feridas interiores. Quantas pessoas encontramos deprimidas, esgotadas, que não se aceitam, chegando ao limite de se rejeitar e procurar compensações na droga, álcool, sexo depravado e, no final, caem ainda mais, chegando ao fundo do poço, abandonando-se em um nada que leva à morte?

                                                              Creio que todos nós temos esta experiência devido ao tipo de vocação-carisma de cuidar dos últimos, pequeninos, pobres, abandonados, que Deus nos deu. Quantos deles chegaram ao limite da morte física e espiritual porque não se aceitaram, sentindo-se fracassados na vida familiar, no trabalho, nos relacionamentos com os outros. Decidiram se matar, matar o seu próprio ser, se esconder numa vida “de lado”, “de esquina”, tendo na mão uma pedra de crack, uma garrafa de álcool ou jogando-se num barzinho fétido com uma garrafa de cerveja na geladeira pronta para uso.

                                                              Amar a si mesmo não é nada fácil, exige uma escolha pessoal constante, tendo a coragem ir além dos próprios fracassos, lutando contra muitas dificuldades e imprevistos, às vezes com fantasmas desconhecidos que habitam o próprio inconsciente. Lutando sem ver resultados, sentindo-se fraco, sem forças, procurando alguma coisa que o convença a desistir da luta, tornando-se um nada, vencido, não se reconhecendo, nem reconhecendo os outros e Deus.

                                                              Aqui nasce uma realidade terrível: temos medo de nós mesmos, das nossas reações incontroláveis… temos medo por nós mesmos. É o medo de perder a identidade, de não saber mais quem somos. Sentimo-nos ameaçados no mais profundo pelas próprias forças demoníacas que habitam nosso inconsciente. Parece que tudo e todos que vivem ao redor são e vivem somente pensando modos de como nos destruir. A situação, assim, se torna sem retorno e tudo leva ao pânico, à autodestruição.

                                                              Jesus é totalmente contrário a estes pensamentos destruidores. Ele nos diz para amarmos os outros, mas, primeiramente, amar-se a si mesmo. Ele acredita em nós e vai além das feridas, pesadelos, limites, dificuldades. Repito: ele acredita em nós! Tem confiança na nossa pessoa e nos responde dizendo-nos que quem não perder a sua vida por Ele não é digno d’Ele. Ele nos pede para amarmos a nós mesmos, encontrando-nos no outro e, sobretudo, n’Ele, que é o Outro por excelência.

                                                              A chave, então, é esta: eu me encontro, eu me amo, eu me conheço se amo e não espero nada dos outros. Eu tenho todas as capacidades e dons recebidos de Deus na minha natureza para amar-me e amar os outros e descubro estas capacidades somente se me amo por primeiro e se a minha vida é dada exclusivamente para os outros. O segredo para viver o primeiro grão do amor, que é amar os outros como eu me amo, passa por esta escolha: amar por primeiro. Eu me amo acreditando que tenho em mim mesmo todas as forças, capacidades, para amar-me e amar sem medida os outros.

                                                              Este passo é bem concreto e real. Por exemplo: se uma pessoa me calunia, eu decido amá-la primeiro. Outra pessoa tenta me afastar de um amigo, eu a amo por primeiro e faço de tudo para ser a chave da reconciliação entre todos. Acontecendo uma situação onde não se vive o perdão na fraternidade, no grupo Arco-Íris, no Talita Kum, nos grupos de casais, eu sou o primeiro que se move para procurar a reconciliação, o diálogo, a compreensão, a descoberta e destruição das coisas confusas que criam ruptura. Não espero que o outro me procure ou procure ser ele o reconciliador, eu faço de tudo para amá-lo primeiro.

                                                              Estes dias, eu estava com um pai. Havia mais de um ano que não falava com a filha. Ela chegou até a colocá-lo na Justiça para receber dinheiro dele. A situação parecia sem volta e a menina projetava outros motivos contra o pai. Eu, que olhava “de fora”, percebi claramente que a revolta contra o pai era devida a uma necessidade escondida, profunda, de querer o pai de volta para ela e, não podendo tê-lo, isto estava se transformando em ódio violento. O sentimento de um pai é sempre, no fundo, o amor para os filhos, não tem jeito!

                                                              O pai decidiu perdoá-la e dar o passo de reconciliação primeiro, sem esperar o amor da filha. Difícil, humanamente falando, porque significava, para o pai, se abaixar e permitir à filha pensar que somente ele errou, fazendo da filha uma heroína destruída pelo desamor do pai. Ainda assim, ele decidiu dar o passo sem esperar uma resposta positiva da filha. Somente amar!

                                                              O resultado foi um abraço recíproco e, hoje, recebe todo dia um telefonema da filha, que se preocupa com a saúde e o dia-a-dia do pai. Este pai descobriu que para amar a filha precisava acreditar em si mesmo. Ele se deu conta de cancelar, se esquecer do mal que a filha fez contra ele. Ele se amou a si mesmo, nas suas capacidades, dons, valores mais altos que um ódio sem fim, que leva à morte, e amou sem querer resposta da filha. A resposta chegou porque ele amou primeiro.

                                                              Devemos acreditar que nada vale guardar mágoas ou pensar e se convencer, com raiva, que “somente eu tenho razão”. Não é nada disso. Na vida em Jesus não é assim. Devo ser eu a compreender que recebi de Deus o dom de amar, indo além das dificuldades pessoais e alheias. De Jesus compreendemos que o mundo pode mudar somente se vivemos o primeiro grau do amor: “ama os outros como amas a ti mesmo!”. Faça esta escolha: ame-se, amando por primeiro. Tire o orgulho, a vaidade, a soberba do seu ser para, humildemente, amar sempre sem esperar nada dos outros.

                                                              Este é o caminho da santidade, do verdadeiro amor, que não pretende, mas… ama! Ama a si mesmo amando os outros sem limites, sempre sendo o primeiro, mais rápido, intuitivo, imediato no amor e nas escolhas. Irá fazer o outro feliz e você estará realizado como pessoa. Que na sua vida os outros possam dizer, olhando-o: é uma pessoa realizada na vida. Sempre sorridente, sempre disponível, sempre atento, sempre o primeiro, sempre esquecido dele mesmo, sempre seguro, com resposta sábia e profunda. Um homem, uma mulher, de Deus que se ama e cuida do caminho de santidade dele mesmo.

                                                              Possa você tornar-se um exemplo para os outros porque decidiu amar e amar sempre, sem parar em nenhuma dificuldade pessoal e alheia. Você pode! É somente acreditar naquilo que Jesus lhe propõe: “ama os outros como te amas!”.

                                                              Finalizando, digo com força: decida-se a amar aquilo que o Jesus lhe oferece, seja o primeiro de todos. Sim, seja o primeiro, sem esperar a resposta dos outros.

                                                              Pe. Antonello Cadeddu

                                                              “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”

                                                              (Mt 22, 39; cf. Rm 13, 8-10)


                                                              Pe. Antonello
                                                              Create a free website with Weebly